Tese de doutorado da Escola de Enfermagem da UFMG avalia salões de beleza da capital e as possibilidades de risco à saúde

A baixa qualificação dos profissionais do segmento da beleza e estética pode favorecer a transmissão de doenças como hepatite B e C

         
Os estabelecimentos que prestam serviços na área de estética, como os salões de beleza, estão cada vez mais presentes no cotidiano de um grande número de pessoas. Este pode ser um dado favorável aos administradores destes estabelecimentos, mas, também é um dado preocupante ao Ministério da Saúde, considerando o risco destas atividades e sua potencial implicação na transmissão de vírus que causam doenças de impacto socioeconômico como hepatite B, C e a AIDS.

Orientações às manicures e pedicures sobre as práticas seguras no ambiente de trabalho são importantes modos de prevenção de agravos à saúde tanto para o profissional, quanto para os clientes. A forma empírica de trabalho dos profissionais do segmento da beleza e estética, devido à falta de preparo e de conhecimento no aspecto da biossegurança, vem despertando a preocupação de profissionais e pesquisadores com o risco de infecções relativas à saúde dos profissionais (ocupacional) e dos clientes deste ramo de atividade.

Um dos pontos altos dessa inquietação se fundamenta no desconhecimento e na possibilidade de não adesão dos profissionais às recomendações de biossegurança, que visam à minimização do risco ocupacional e para o cliente, com relação à não utilização de equipamentos de proteção individual (EPI), à reutilização de materiais de uso único, à adoção de inadequadas técnicas de processamento de materiais, à reduzida adesão à prática de higienização das mãos (HM) e à falta de imunização contra hepatite B e tétano.

A análise das recomendações de biossegurança do segmento da estética e da produção científica mundial em relação a esse conhecimento foi o objetivo da tese de doutorado da enfermeira Juliana Ladeira Garbaccio, sob orientação da professora  Adriana Oliveira, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFMG.

Juliana destaca que a preocupação com as práticas inadequadas relativas à biossegurança motivou o trabalho, sobretudo fundamentado em trabalhos realizados em outros países e apenas dois em âmbito nacional, que evidenciaram a ocorrência da transmissão microbiana em salões de beleza devido ao despreparo dos profissionais no manuseio e processamento dos instrumentos utilizados na prática cotidiana como alicate, espátulas e outros materiais. Para o trabalho de campo uma amostra quantitativa de 235 salões participantes foram sorteados dentre os 600 que possuíam cadastros de alvará de funcionamento fornecido pela prefeitura de Belo Horizonte (PBH) em 2010. Teve-se o cuidado de mapeá-los por bairro, de forma a obter uma amostra geograficamente disposta em todas as regiões do município. Os profissionais dos salões foram então convidados a responderem um questionário sobre o conhecimento deles em relação a riscos da atividade para a saúde própria e do cliente, além do convite para a realização de exames sorológicos para hepatites B e C das manicures e pedicures, e por último ainda foi avaliado o funcionamento das autoclaves (utilizados para esterilização dos instrumentais) nos salões que possuíam este equipamento e por ter abrangido toda a cidade de Belo Horizonte”, afirmou Juliana.

Como resultado constatou-se um desconhecimento destes profissionais sobre biossegurança em relação ao descarte de materiais perfurocortantes, condutas após acidentes com material biológico, mecanismos de transmissão microbiana e o reprocessamento de materiais.

De acordo com Juliana, as manicures e pedicures entrevistadas apresentaram melhor resultado para o conhecimento das medidas de biossegurança em comparação com a sua adesão, ou seja, alguns estabelecimentos possuem a preocupação, mas não colocam em prática, ou não da forma correta, as medidas preconizadas. “A adesão à higienização das mãos entre o atendimento aos clientes, por exemplo, foi considerada frágil apesar de as entrevistadas terem reconhecido a importância do procedimento. Também houve baixa adesão com relação aos equipamentos de proteção individual (EPI), uniforme como jaleco, avental e uso de sapatos fechados e o descarte de material perfurocortante em local apropriado”, enfatizou. Do mesmo modo, de acordo com o estudo, a conduta das profissionais após os acidentes com material perfurocortante (sendo o alicate de cutícula o principal instrumento causador de lesões) foi na maior parte incorreta, favorecendo a transmissão de micro-organismos potencialmente encontrados no sangue, em especial os vírus das hepatites B, C e o HIV.

O estudo aponta, ainda, que apenas 38,3% das manicures e pedicures relataram cobertura vacinal completa contra hepatite B. E apenas 35,3% dos 235 salões visitados utilizam a autoclave, enquanto aproximadamente 70% das entrevistadas a citou como método recomendado para a esterilização dos seus artigos. “O fator interveniente principal referido pelos profissionais para não adesão à medidas de biossegurança, aos equipamentos de proteção individual e a proteção vacinal contra hepatite B e tétano foram a falta de informação, incômodo, desconforto e alergia no uso de EPI; e esquecimento ou falta de tempo para se dirigir a uma Unidade Básica de Saúde”, explicou a enfermeira. “Há muito o que fazer para se melhorar a adesão às medidas de biossegurança de modo a atender às exigências mínimas de segurança do trabalhador e do cliente, o que, inicialmente, depende da sensibilização destes profissionais como principais responsáveis pela conduta” completou. Ela ainda lembra da necessidade de efetivar o cadastro dos estabelecimentos para permitir o assessoramento e a vigilância pelos órgãos sanitários em seu caráter tanto educativo quanto fiscalizador.

Para a autora, a presente pesquisa amplia outras possibilidades de intervenções junto ao segmento da beleza e estética, por tornar perceptível o quão fundamental é dedicar maior atenção e investimento a esta categoria. “O segmento da beleza e estética é bastante carente de trabalhos, pesquisas e práticas educativas que, em parceria com outras entidades de saúde pode-se propor ações no sentido de capacitar e sensibilizar os profissionais da área para a importância da biossegurança”, declarou Juliana. Ela também aponta a necessidade da regulamentação da profissão que foi reconhecida apenas em janeiro de 2012, podendo-se exigir um formação ou capacitação mínima em escolas técnicas reconhecidas para que atuem na área.

A presente pesquisa foi realizada no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Infecções Relacionadas ao Cuidar em Saúde (NEPIRCS) da Escola de Enfermagem da UFMG, sob coordenação da professora Adriana Oliveira, orientadora desta tese, com financiamento da FAPEMIG (Programa Pesquisador Mineiro), e do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIP) da PUC Minas, pelo para a realização do estudo piloto. Os resultados são extremamente importantes, atuais e provocadores a órgãos públicos, à sociedade a academia, estando divulgados após a defesa da Tese defendida em Dezembro de 2013 em forma de papers e de um “Manual sobre Biossegurança para Manicures, Pedicures e Podólogos” ilustrado, que tem sido entregue aos salões participantes, distribuídos em eventos científicos e encaminhado à Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Tese: “Conhecimento e adesão às medidas de biossegurança entre manicures e pedicures”
Autora: Juliana Ladeira Garbaccio
Orientadora: Adriana Oliveira
Defesa: 10 de dezembro de 2013


Fonte: Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem da UFMG

Autor: Assessoria de Comunicação da Escola de Enfermagem da UFMG

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