Ansiedade, tristeza profunda, isolamento e mudanças de comportamento têm se tornado cada vez mais frequentes entre crianças e adolescentes. Mais do que tratar doenças, o desafio atual é perceber sinais, acolher com sensibilidade e agir no momento certo. Nesse contexto, a escola ocupa um papel fundamental, uma vez que professores e equipes pedagógicas costumam ser os primeiros a identificar que algo não vai bem, seja pela queda no rendimento escolar, crises emocionais ou dificuldades de convivência.
A interlocução entre a escola e as Redes de Atenção à Saúde (RAS) é fundamental para garantir cuidado integral às crianças e adolescentes, especialmente a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), nos casos de sofrimento mental e de uso prejudicial de álcool e outras drogas. “Mais do que espaços de aprendizagem, as escolas ocupam um lugar estratégico na identificação precoce de situações de vulnerabilidade, sofrimento mental e necessidades de cuidado, sendo muitas vezes o primeiro espaço capaz de perceber mudanças no comportamento e no desenvolvimento dos estudantes”, destaca a coordenadora estadual de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), Taynara Fátima Silva de Paula.
Segundo a coordenadora estadual, a atuação articulada entre educação e saúde torna possível a construção de respostas mais humanizadas, a prevenção de processos de exclusão e fortalece ações de acolhimento, proteção e promoção da saúde mental.
Nesse contexto, é essencial que a rede de educação conheça os diferentes pontos de atenção da RAPS e compreenda o papel de cada serviço (como CAPS, Atenção Primária à Saúde, ambulatórios e serviços de urgência) para que os encaminhamentos ocorram de maneira responsável, qualificada e em tempo oportuno. “Essa integração contribui para reduzir estigmas, ampliar o acesso ao cuidado e assegurar que crianças e adolescentes sejam acompanhados em sua singularidade, respeitando seus vínculos familiares, comunitários e territoriais”, enfatiza a coordenadora.
Em Minas Gerais, a Fundação Helena Antipoff é uma referência de como esse trabalho articulado pode transformar a vida de estudantes, famílias e profissionais da educação. O diretor de Educação da Fundação, Wanderson Cleres, reforça que essa visão integrada acompanha a própria essência do legado de Helena Antipoff. “Para Helena Antipoff, não fazia sentido separar educação e saúde. A escola precisa ser um espaço de acolhimento, onde o estudante seja percebido para além da nota ou do desempenho escolar”, afirma.
A presidente da Fundação, Luciene Millo, destaca a importância de um olhar atento, humano e verdadeiramente inclusivo no ambiente educacional. Segundo ela, é necessário cuidado para que práticas bem-intencionadas não acabem reforçando processos de exclusão. “O grande desafio é construir uma inclusão real, em que todos os estudantes estejam efetivamente integrados aos processos de aprendizagem, convivência e desenvolvimento”, destaca.
Na clínica da Fundação Helena Antipoff, os estudantes são acolhidos a partir de uma perspectiva ampliada, que considera aspectos emocionais, sociais e familiares. A psicóloga Luzia Andrade explica que o perfil dos atendimentos mudou significativamente ao longo dos anos. “Antes, a maior demanda era de estudantes neurodivergentes. Depois, observamos um aumento expressivo dos casos de ansiedade. Hoje, recebemos muitos adolescentes em sofrimento intenso, com episódios de automutilação e ideação suicida”, relata.
Essa situação revela que os desafios enfrentados pelos estudantes vão muito além da aprendizagem. Muitas vezes, a dificuldade apresentada em sala de aula é apenas um reflexo de questões emocionais, sociais ou familiares mais profundas. A assistente social Patrícia Santos ressalta que o atendimento desenvolvido pela Fundação considera o sujeito em sua totalidade. “Nosso olhar envolve o estudante, a família, os professores e a comunidade. Frequentemente, uma demanda que aparenta ser apenas pedagógica possui questões sociais e familiares associadas”, explica.
O cuidado começa dentro da própria escola. Ao identificar mudanças de comportamento ou sinais de sofrimento emocional, a equipe pedagógica aciona a clínica da Fundação. “Trabalhamos com três fluxos de atendimento: estudantes, servidores e comunidade. A maior parte das demandas surge da escola, quando os profissionais percebem alterações importantes em sala de aula”, explica a assistente social da clínica da Fundação Helena Antipoff, Joselânia Wood.
O acompanhamento é contínuo e, nos casos de maior complexidade, ocorre a articulação com a rede pública de saúde, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e outros serviços especializados do SUS. A referência em Saúde Mental da Superintendência Regional de Saúde de Belo Horizonte, Viviane Maciel, explica o fluxo de acesso para serviços de saúde mental no SUS em Minas Gerais. “A rede de atenção psicossocial visa garantir atendimento integral às pessoas em sofrimento mental ou com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas. O fluxo perpassa toda a rede de saúde, em seus diversos níveis, sendo os CAPS dispositivos de portas abertas para acolhimento e construção de projetos terapêuticos dos casos pertinentes aos serviços. As ações de saúde mental na atenção primária à saúde também são fundamentais.
Além do atendimento clínico, o cuidado também se amplia por meio de iniciativas voltadas ao fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. A atuação da Fundação se estende para além da escola através da Casa da Mulher, coordenada por Rosemary de Jesus, que integra ações de saúde, educação e assistência social em atividades de acolhimento, escuta psicológica, fortalecimento da autonomia e promoção da cidadania.
O trabalho inclui palestras nas escolas, atividades com famílias e ações comunitárias, reforçando que a saúde mental não se constrói de forma isolada, mas coletivamente, por meio do cuidado, da escuta e da construção de redes de apoio.
Por: Leandro Heringer
Foto: produzida por IA
