Avanços no SUS: Santa Casa de Montes Claros realiza procedimento inovador para tratar câncer avançado

A Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) da Santa Casa de Montes Claros realizou neste mês de março um procedimento ainda pouco difundido no Brasil e que está trazendo novas perspectivas para pacientes com câncer avançado e refratário (que não responde aos tratamentos convencionais). A equipe médica da instituição realizou uma quimioterapia intra-arterial em um usuário do Sistema Único de Saúde (SUS), com tumor metastático localizado no terço superior do esôfago. 

A lesão primária do paciente era um carcinoma espinocelular de base de língua, previamente operado em outro centro médico. Atualmente, segundo a Santa Casa, o paciente é acompanhado em um dos principais centros oncológicos de São Paulo, que é referência nacional na área, e já passou por cirurgias, radioterapia, imunoterapia e quimioterapia convencional. 

Porém, mesmo mantendo o tratamento com imunoterapia a doença progrediu, apresentando uma nova lesão no terço superior do esôfago. Diante desse cenário, após discussão multidisciplinar entre as equipes de oncologia, neurorradiologia e radiologia intervencionista, foi indicada quimioterapia intra-arterial na Santa Casa.

“Por ser um paciente sensível à quimioterapia, mas que apresentava intensos efeitos colaterais no método convencional, optamos por um procedimento ultra específico. A técnica permite a injeção direta do fármaco na lesão, garantindo maior concentração da droga no tumor e redução significativa dos efeitos colaterais. Embora incomum para lesões de cabeça e pescoço, a literatura internacional descreve bons resultados”, explica o neurocirurgião intervencionista, Luís Gustavo Biondi. 

Por sua vez, a médica radiologista, Maria Luiza Teixeira observa que “o procedimento exige um trabalho conjunto e minucioso. Consiste em um cateterismo superseletivo das artérias que nutrem o tumor. O acesso é feito por meio de um cateter, inserido pela artéria femoral (na perna) ou radial (no braço) até a região próxima ao tumor. Após o estudo da anatomia dos vasos e do tumor, um micro cateter é introduzido para alcançar os principais vasos que alimentam a lesão. Isso torna a aplicação extremamente específica, reduzindo os riscos de a medicação atingir regiões saudáveis e que não são o alvo do procedimento”.

Os médicos ressaltam que a abordagem permite uma concentração de fármaco intratumoral cerca de dez vezes maior do que na quimioterapia comum. “O paciente apresenta muito menos sintomas pós-procedimento, o que garante qualidade de vida a alguém que, geralmente, já está bastante debilitado pela doença oncológica”.

Planejamento

Diferente de tumores no fígado, onde a técnica é mais comum, a aplicação no pescoço é um desafio maior devido à anatomia complexa, vasos mais finos e anastomoses (comunicações) perigosas com as artérias cerebrais. O planejamento exige um estudo detalhado, já que a anatomia regional pode estar distorcida por cirurgias e radioterapias anteriores.

Outro diferencial do procedimento executado pela Unacon da Santa Casa de Montes Claros foi a adoção de um protocolo próprio. “O procedimento requer um preparo pré e pós-operatório específicos. Seguimos um novo protocolo criado especificamente para o nosso serviço pela oncologista Romana Barbosa”, afirmam os especialistas.

Para o superintendente do hospital, Maurício Sérgio Sousa e Silva, “a iniciativa reforça o papel da Santa Casa Montes Claros como referência em alta complexidade. Além da tecnologia avançada, temos o privilégio de contar com profissionais preparados para casos desafiadores. Isso mostra que a instituição oferece tratamento de ponta, estrutura e acolhimento para pacientes de toda a região”.

Já a coordenadora de Redes de Atenção à Saúde na Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Montes Claros, Denise Maria Lúcio da Silveira avalia que “o procedimento realizado pela Unacon da Santa Casa de Montes Claros representa avanço e o esforço do Sistema Único de Saúde em prestar um serviço de qualidade à população, além de evidenciar a qualidade técnica de profissionais atuantes no interior do estado”.

Política Estadual 

A política estadual de oncologia do SUS, coordenada pela Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais (SES-MG), está focada na descentralização do atendimento, diagnóstico precoce e agilidade no tratamento. A rede mineira busca reduzir a mortalidade através da ampliação de serviços de alta complexidade e implementação de programas específicos, entre eles o “Cuidar na Hora Certa”, instituído para enfrentar o câncer de mama, através do aumento da capacidade de biópsias e tratamentos em diversas macrorregiões.

Outro foco de atuação da SES-MG é o investimento na modernização de equipamentos (mamógrafos e tomógrafos) e na habilitação de novos serviços no interior do estado, visando reduzir a necessidade de deslocamento de pacientes para ter acesso a tratamentos em outros centros urbanos. 

Até outubro de 2024 o Norte de Minas possuía duas Unacons sediadas na Santa Casa e no Hospital Dilson Godinho, em Montes Claros. Já em novembro, por meio de processo conduzido pela SES-MG, o Ministério da Saúde habilitou a Unacon do Hospital Regional de Janaúba, que administra o Hospital do Câncer Marcone Cleber Silva Oliveira.

Por: Pedro Ricardo

Foto Ascom/Santa Casa de Montes Claros

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