Montes Claros: SES-MG apresenta à OMS e à OPAS as estratégias para enfrentamento às leishmanioses 

Pelo fato de, em 2021, ter sido pioneiro na adoção de estratégias do Ministério da Saúde para o reforço das ações de vigilância e controle das leishmanioses visceral e tegumentar, nesta quarta e quinta-feira, 17 e 18 de junho, Montes Claros está recebendo a visita de representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), com o objetivo de conhecer o trabalho implementado pelo município em parceria com o Ministério da Saúde e com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG). 

A visita dos técnicos das organizações internacionais de saúde ao país foi iniciada na segunda-feira, 15/6, durante encontro realizado no Ministério da Saúde, em Brasília. Na oportunidade, especialistas, gestores, pesquisadores e representantes da sociedade civil conheceram as estratégias desenvolvidas pelo país no enfrentamento das leishmanioses e discutiram alternativas para fortalecer as ações de prevenção, vigilância, diagnóstico e assistência às pessoas acometidas pela doença. 

Segundo o Ministério da Saúde, “alinhada ao Plano de Ação Regional contra a Leishmaniose e ao Roteiro da OMS para Doenças Tropicais Negligenciadas 2021-2030, a missão permitirá que representantes da Organização Mundial da Saúde e da OPAS conheçam de perto as estratégias adotadas pelo Brasil para enfrentar a doença. Entre as experiências apresentadas estão a ampliação do acesso ao diagnóstico; a incorporação de novas tecnologias e o fortalecimento da assistência aos pacientes”.

O cientista do Programa de Leishmanioses da OMS, Saurabh Jain, entende que “o Brasil reúne experiências relevantes para toda a região das Américas e a visita representa uma oportunidade para conhecer iniciativas que possam contribuir para o fortalecimento das ações de enfrentamento da doença em outros países”.

Já a representante da OPAS, Ana Lucianez, destaca a importância da articulação entre governo, profissionais de saúde, pesquisadores e movimentos sociais como um dos diferenciais observados no Brasil no enfrentamento às leishmanioses. 

“É muito gratificante ver como todos trabalham em conjunto. A participação da sociedade civil é fundamental para enfrentar as doenças tropicais negligenciadas e garantir que elas deixem de ser inviabilizadas”, afirmou a representante da OPAS na abertura do encontro com o Ministério da Saúde, em Brasília. 

Minas Gerais

“Montes Claros é desafiado pela incidência dos dois tipos de leishmaniose: a visceral e a tegumentar. Porém, o município consegue implementar ações inovadoras que evidenciam, na prática, a importância do Sistema Único de Saúde (SUS). Como município pioneiro na estratégia de encoleiramento de cães para o monitoramento da transmissão da leishmaniose tegumentar, o município já apresenta redução de casos notificados da doença tanto em animais como nas pessoas”, observa Francisco Edilson Ferreira, coordenador de Vigilância de Zoonoses no Ministério da Saúde. 

Bartolomeu Teixeira Lopes, referência técnica em entomologia na Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Montes Claros explica que nos últimos cinco anos, com apoio da SES-MG e do Ministério da Saúde, a Secretaria Municipal de Saúde de Montes Claros viabilizou o encoleiramento de aproximadamente 22 mil cães. As coleiras impregnadas com inseticida afastam os mosquitos transmissores da leishmaniose tegumentar para cães e, consequentemente, viabilizam a queda da transmissão da doença para as pessoas. 

“A taxa de incidência da doença em cães que antes do encoleiramento girava em torno de cinco casos confirmados para cada dez animais testados para a doença, atualmente está em dois casos confirmados para cada dez cães submetidos ao exame”, observa Bartolomeu. 

Atualmente, além de Montes Claros o encoleiramento contempla mais de 34,7 mil animais em Jaíba, Monte Azul, Francisco Sá, Fruta de Leite e Grão Mogol. Entre julho e agosto deste ano o trabalho será estendido para o município de Rubelita. 

Aliado ao encoleiramento de cães, Arlete Gonçalves Lisboa, referência técnica em leishmanioses na SRS Montes Claros, explica que outra estratégia para o enfrentamento da doença adotado no Norte de Minas se refere à utilização de testes rápidos, disponibilizados em hospitais e municípios polo de microrregiões de saúde. 

Durante o encontro em Montes Claros, Stefânia Gazzinelli, integrante da equipe do Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose na SES-MG apresentou dados epidemiológicos, as estratégias e desafios para o enfrentamento da doença no estado. 

Entre as estratégias destacadas está, além do encoleiramento de cães, a implantação de unidades do Serviço de Atenção Especializada Ampliado (SAE) nas macrorregiões de saúde do estado, visando o atendimento de demandas nos segmentos das leishmanioses tegumentar e visceral, tuberculose, hanseníase, hepatites virais e HIV/Aids; o investimento em ações de educação em saúde por meio da Força Estadual do SUS; a disseminação da utilização de testes rápidos para diagnóstico da doença; levantamento entomológico já realizado em 700 municípios; incentivo e apoio ao funcionamento de centros colaboradores nas macrorregiões de saúde, visando a descentralização de exames laboratoriais e agilização da emissão de resultados. 

Rita de Cássia Rodrigues, coordenadora de vigilância epidemiológica na SRS Montes Claros, avalia que “apesar de desafiador, o enfrentamento às leishmanioses apresenta perspectivas positivas levando em conta a troca de experiências e o estabelecimento de parcerias entre o Estado, Ministério da Saúde e municípios, aliado ao empenho dos profissionais que executam as ações de campo”.

A doença

O Ministério da Saúde aponta que “nas Américas a leishmaniose permanece como um importante desafio de saúde pública, especialmente em áreas de maior vulnerabilidade social e de difícil acesso aos serviços de saúde”. 

No Norte de Minas a ocorrência da leishmaniose visceral (também conhecida como Calazar) é descrita desde a década de 1940 e, no Vale do Rio Doce, desde 1960. A partir da década de 1980 a leishmaniose visceral se expandiu para o ambiente urbano. A doença é transmitida pelo vetor Lutzomyia longipalpise, conhecido popularmente como mosquito palha, tatuquiras, birigui, entre outros, e tem o cão como principal hospedeiro. É uma doença caracterizada por febre de longa duração, aumento do fígado e do baço, perda de peso, fraqueza, anemia e alterações nas células do sangue. 

“Trata-se de uma doença de notificação compulsória. A partir de todo caso suspeito se torna obrigatória a investigação, com a avaliação do paciente e a realização dos exames que possam confirmar o caso, bem como desencadear ações ambientais para o controle da doença”, explica Agna Soares da Silva Menezes, coordenadora de vigilância em saúde na SRS de Montes Claros. 

Já a leishmaniose tegumentar está associada a ambientes rurais e de mata, tendo animais silvestres como reservatórios. A doença atinge a pele e mucosas (nariz, boca e garganta) tendo como sintomas o surgimento de feridas que geralmente são indolores, têm bordas elevadas e fundo avermelhado. Podem evoluir para lesões destrutivas nas mucosas se não forem tratadas.

Por: Pedro Ricardo

Foto: Bartolomeu Teixeira Lopes

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