Neurodivergência além dos rótulos: quando a superdotação também precisa de cuidado

Ela tinha seis anos e falava com naturalidade sobre mitologia grega, romana e egípcia. Na escola, porém, sentia-se deslocada. “O interesse dela não era o mesmo das crianças da sua idade. Muitas vezes, ela preferia conversar com alunos mais velhos”, conta a nutricionista e mãe atípica Raquel Dias Viana, ao falar da filha, diagnosticada com superdotação e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Esse é um caso de dupla excepcionalidade.

A história de Raquel ajuda a desconstruir um dos principais estigmas associados à superdotação: a ideia de que pessoas superdotadas seriam “super-heróis”, sempre bem-sucedidos e emocionalmente equilibrados. “O superdotado não é necessariamente bom em tudo. Muitas vezes, aprende rápido, se desmotiva, questiona e acaba sendo rotulado como ‘sabichão’ ou ‘problemático’”, relata.

Segundo a psicóloga Arlete Santana, a superdotação faz parte do campo da neurodivergência, que abrange diferentes formas de funcionamento do cérebro humano, indo muito além dos transtornos mais conhecidos, como o autismo. “Falamos de indivíduos com potencial cognitivo significativamente acima da média, o que ocorre em cerca de 2% da população. Isso pode se manifestar em áreas acadêmicas, artísticas, psicomotoras ou de liderança”, explica a especialista.

Arlete reforça que o diagnóstico não se baseia apenas no quociente de inteligência (QI). “Hoje, avaliamos também os comportamentos, a forma intensa de sentir, perceber e analisar o mundo. A superdotação envolve uma hiperexcitabilidade cerebral, o que pode gerar maior sensibilidade emocional, dificuldade de socialização e sofrimento psíquico, especialmente quando há bullying ou incompreensão do entorno”, diz a psicóloga. 

O trabalho multidisciplinar também é destacado pelo nutricionista da Fundação Helena Antipoff, Advalter de Assis. ”As características da pessoa com superdotação podem ser percebidas em um trabalho com diversos profissionais, como psicólogas,  terapeutas ocupacionais e nutricionistas. Em relação à nutrição, a pessoa superdotada pode ter maior seletividade alimentar e até maior possibilidade de casos de alergias alimentares”.

SUS

No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece a importância do cuidado integral às pessoas neurodivergentes no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), por meio da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência. Em Minas Gerais, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) integra essa política ao articular atenção básica, saúde mental e serviços especializados, garantindo acolhimento, avaliação e acompanhamento multiprofissional.

A referência em Saúde Mental da Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Belo Horizonte, Viviane Maciel, explica o fluxo de acesso para serviços de saúde mental no SUS em Minas Gerais. “A rede de atenção psicossocial visa garantir atendimento integral às pessoas em sofrimento mental ou com problemas decorrentes do uso de álcool e outras drogas. O fluxo perpassa toda a rede de saúde, em seus diversos níveis, sendo os CAPS dispositivos de portas abertas para acolhimento e construção de projetos terapêuticos dos casos pertinentes aos serviços. As ações de saúde mental na atenção primária à saúde também são fundamentais”, disse a referência.

Diagnóstico esclarecedor 

Para Raquel, o diagnóstico de sua filha foi um divisor de águas. “Eu sabia que havia algo diferente, mas não conseguia explicar. Depois da avaliação, passei a entender melhor o comportamento da minha filha e a buscar apoio adequado. Hoje vibro com as conquistas dela, mas também me preocupo com a socialização, principalmente na adolescência.”

Outro ponto pouco discutido é a chamada dupla excepcionalidade, quando a superdotação vem associada a condições como TDAH ou Transtorno do Espectro Autista. “Isso torna o diagnóstico mais complexo e aumenta o risco de essas pessoas ficarem invisíveis para as políticas públicas”, alerta a psicóloga Arlete.

Falar de superdotação como parte da neurodivergência é, sobretudo, falar de saúde mental, direitos e cidadania. Cuidar dessas pessoas não é apenas reconhecer talentos, mas oferecer suporte para que desenvolvam seu potencial sem sofrimento. Como lembra Arlete, “quando ignoramos essas diferenças, perdemos pessoas, histórias e um capital humano valioso para o país”.

Onde procurar atendimento

A porta de entrada para o cuidado pode ser a Unidade Básica de Saúde (UBS), o posto de saúde mais próximo de casa. As equipes realizam o primeiro acolhimento e, se necessário, fazem o encaminhamento correto para outro serviço da RAPS. Outra opção é o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Esses centros funcionam de “portas abertas”, sem necessidade de encaminhamento, e oferecem atendimento especializado para sofrimento psíquico mais intenso.

Para situações de crise aguda e emergência, o SAMU (192) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) devem ser acionados.

Para mais informações sobre os serviços de saúde mental em Minas Gerais, acesse: (https://www.saude.mg.gov.br/saudemental

Por: Leandro Heringer

Imagens: geradas por meio do uso de IA

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