O uso de telas – televisores, celulares e tablets – é uma realidade no cotidiano. Seja para fins profissionais, escolares ou para interação. A internet e as tecnologias digitais favorecem o acesso a pessoas e conteúdos que eram difíceis em outros tempos. Contudo, o modo de usar e conviver com as telas pode afetar a saúde mental.
Referência em saúde mental da Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Belo Horizonte, Denize Armond, destaca a necessidade de compreender a saúde mental sem preconceitos. “A sociedade possui grande preconceito em relação à saúde mental. Existe uma pressão para que a fragilidade seja vista como um defeito. O preconceito acaba sendo reforçado pela própria pessoa que precisa de ajuda”.
Crianças e jovens
O cuidado com a saúde mental também deve abranger crianças e adolescentes, especialmente no que diz respeito aos efeitos do uso prolongado de telas e aparelhos digitais. Segundo Taynara Fatima Silva de Paula, coordenadora estadual de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG), o efeito do uso demorado de telas não é algo tão novo, e a ciência já vem se debruçando há algum tempo.
“Mas, recentemente, houve um aumento expressivo do tempo de tela e do número de crianças e adolescentes dedicando a maior parte de seu tempo a jogos, redes sociais e outras interações mediadas por essas tecnologias”, disse a coordenadora. As consequências disso já vêm sendo percebidas por pais, professores e profissionais da saúde. “Seja na hora de brincar, se divertir no tempo livre, ou nas tarefas escolares, por exemplo, as telas – especialmente celulares e tablets – estão sempre presentes. E para as crianças e adolescentes é quase inconcebível não usar as telas nesses momentos”, diz Taynara.
Para ela, a questão não é proibir o uso dessas tecnologias. “Pelo contrário, é preciso estimular o uso consciente, mas principalmente oferecer outras opções de diversão e ferramentas de ensino”, explica. No caso das atividades lúdicas, brincadeiras que exploram o ambiente externo, quintais, clubes e praças de esporte devem ser estimuladas. “Principalmente para o desenvolvimento físico de crianças e adolescentes, que precisam de muito movimento nesta fase da vida”, reforça Taynara.

Aprendizado
Outro aspecto importante lembrado pela coordenadora é a qualidade do aprendizado. É inegável que as novas tecnologias ampliam o alcance do conhecimento, das experiências, mas quando usadas de forma errada, podem debilitar a capacidade de aprender ou apreender as informações. “Estas ferramentas podem ser úteis para auxiliar na formação, com pesquisas, por exemplo”, afirma Taynara. “Mas são danosas ao aprendizado quando já trazem um produto pronto. Hoje em dia é fácil pedir para uma IA fazer aquela famosa redação de retorno das férias, por exemplo”. Segundo ela, “isso retira do aluno o processo de criação, a análise e interpretação das lembranças do período de férias, e o processo de composição do texto para a redação”.
Saúde mental de qualidade
Vida social (ter amigos, colegas, participar de grupos diversos), prática de exercícios (seja em brincadeiras, no esporte, ou atividades lúdicas ao ar livre), e o aprendizado – não só o acadêmico/educacional – mas aquele que vem de experiências e experimentações, com participação ativa de quem aprende, são elementos importantes para uma saúde mental equilibrada e de qualidade.
E são justamente esses elementos que são “quase suprimidos” quando as telas estão presentes por longos períodos na vida dos adolescentes e crianças, tanto no dia a dia quanto nas escolas.
Segundo Taynara, o déficit acentuado destes elementos – especialmente na formação de crianças e adolescentes – pode acarretar dificuldades de socialização e até episódios de ansiedade e depressão. “Hoje já podemos detectar um aumento de demandas por tratamentos de ansiedade e depressão, principalmente nos serviços de saúde mental que atendem crianças e adolescentes, que provavelmente estão ligados ao tempo de tela exagerado entre esse público”, diz a coordenadora.
Jovens conectados
Os dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pela Unesco em parceria com o Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento Da Sociedade da Informação (Cetic.br/NIC.br), revelam que a conectividade é praticamente onipresente entre os jovens brasileiros, independentemente da classe social.
Indicadores de Conectividade Infantojuvenil
| Indicador | Percentual (9 a 17 anos) | Análise do Impacto |
|---|---|---|
| Usuários de Internet | 93% | A exclusão digital é residual; o desafio agora é a qualidade e segurança do uso. |
| Acesso via Celular | 98% | O acesso é móvel, individual e difícil de supervisionar (telas pequenas). |
| Posse de Celular Próprio | 81% | A maioria absoluta possui seu próprio aparelho, não compartilhado com a família. |
| Início < 6 anos | 24% | Um quarto das crianças entra no mundo digital na primeira infância. |
| Início < 10 anos | 63% | A entrada ocorre antes da maturação completa do córtex pré-frontal. |
Fonte: Consolidação de dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024 – (Link da pesquisa)
Menos tela e mais conexão
A prática interdisciplinar é uma estratégia para tratar a questão. Patrícia Santos, assistente social, e Luzia Luciana Rodrigues de Andrade, psicóloga, trabalham na clínica da Fundação Helena Antipoff. “Fazemos um trabalho conjunto de “menos tela e mais conexão” que consiste em sensibilizar as pessoas acerca da necessidade de sair do mundo virtual e vir para o mundo real, onde há a oportunidade de socializar, conviver, interagir e aprender com o outro e através dele”, disse Luzia.
As profissionais destacam que o controle sobre o hábito das telas é um desafio para todos, inclusive para os pais, já que a vida através das telas é uma prática muito comum nos tempos atuais. Segundo Patrícia e Luzia, deixar as telas para conviver pessoalmente é desafiador. “Sabemos que o uso de telas gera dependência, semelhante à uma dependência química. O nosso trabalho ocorre com paciente e família, orientando-os acerca das mudanças e substituições que agreguem valor à convivência familiar, substituindo o vício nas telas, jogos e redes sociais pelo afeto, conexão e interação com os pares”, disse Patrícia.
Saúde mental no SUS
O cuidado do Sistema Único de Saúde (SUS) na saúde mental contempla atendimento de diversos níveis desde a atenção primária até o cuidado hospitalar passando pelos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS. sugestão colocar no texto onde procurar atendimento.
A porta de entrada para o cuidado pode ser a Unidade Básica de Saúde (UBS), o posto de saúde mais próximo de casa. As equipes realizam o primeiro acolhimento e, se necessário, fazem o encaminhamento correto para outro serviço da RAPS. Outra opção é o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Esses centros funcionam de “portas abertas”, sem necessidade de encaminhamento, e oferecem atendimento especializado para sofrimento psíquico mais intenso.
Para situações de crise aguda e emergência, o SAMU (192) e as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) devem ser acionados. Para mais informações sobre os serviços de saúde mental em Minas Gerais, acesse: (https://www.saude.mg.gov.br/saudemental).
Por: Leandro Heringer – SRS Belo Horizonte
Imagem de capa: Banco de imagens Magnific
Foto: Acervo pessoal – Taynara de Paula, coordenadora estadual de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, durante palestra
