Nos últimos dias, as notícias envolvendo óbitos de pessoas infectadas com hantavírus em um navio de cruzeiro tem preocupado órgãos de saúde pública de todo o mundo. Autoridades confirmaram que um paciente testou positivo para a variante genômica Andes vírus (ANDV), cepa que circula em países sul-americanos. O caso acendeu ainda mais o alerta na nossa região, especialmente após a confirmação de um óbito em Minas Gerais, em fevereiro, não relacionado com o caso do cruzeiro.
A Fundação Ezequiel Dias (Funed) – onde está localizado o Laboratório Central de Saúde Pública de Minas Gerais (Lacen-MG), referência estadual para o diagnóstico da enfermidade – tem desempenhado papel estratégico na vigilância laboratorial e epidemiológica do hantavírus, ampliando a capacidade diagnóstica e fortalecendo o monitoramento das variantes que circulam no país. Apenas nos últimos cinco anos, o Lacen-MG analisou cerca de 600 amostras suspeitas.
Segundo a responsável técnica pelo Laboratório de Riquetsioses e Hantavirose da Funed, Ana Íris de Lima Duré, a instituição realiza, desde 2008, exames sorológicos IgG e IgM em amostras suspeitas e, em abril de 2026, implantou o teste molecular PCR, metodologia utilizada no Brasil apenas pelo Instituto Adolfo Lutz (IAL), referência nacional para a doença, e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
“O exame molecular atua como ferramenta complementar ao diagnóstico sorológico e possibilita a detecção do material genético do vírus em amostras positivas, permitindo também o acompanhamento das variantes circulantes por meio do sequenciamento genético”, explica Ana Íris. Desde 2012, a Funed realiza esse sequenciamento em parceria com a Universidade de São Paulo (USP). Clique aqui para ler o artigo com autoria da referência técnica sobre o assunto.
Transmitido principalmente pelo contato com fezes, urina e saliva de roedores silvestres infectados, o hantavírus exige monitoramento constante e capacidade laboratorial especializada. “Nesse contexto, a atuação da Funed fortalece a resposta do Sistema Único de Saúde (SUS), contribuindo para a detecção precoce de casos, o acompanhamento epidemiológico e o avanço científico relacionado à doença”, completa a referência técnica da Funed.
Pesquisas sobre o agravo
Pesquisadores da Funed publicaram, ainda em 2024, um estudo que analisou mais de 35 mil pessoas em sete países da América do Sul, incluindo populações rurais e urbanas, trabalhadores expostos, doadores de sangue e pacientes com suspeita de doenças febris ou respiratórias. O levantamento identificou quase dois mil casos confirmados de hantavírus, com ocorrência estimada em cerca de 4% da população estudada, entre os anos 2010 e 2022. O resumo do artigo pode ser acessado em https://link.springer.com/article/10.1007/s00705-024-06104-5
Os resultados evidenciaram ampla circulação do vírus na região, alertando para uma possível subnotificação. As variantes genéticas de hantavírus descritas na Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru são: Anajuba (ANAJV), ANDV (Andes), ARAV (Araraquara) e CASV (Castelo dos Sonhos). No Brasil, a variante mais virulenta, ARAV, está relacionada a altas taxas de letalidade (~40%). A transmissão incomum entre pessoas (relatada apenas para a variante ANDV) está associada à alta quantidade de vírus e ao contato próximo entre pessoas, condições que podem ter favorecido supostamente o surto no navio.
Os autores da publicação, os pesquisadores Sílvia Oloris, Felipe Iani e Cristiane Scarponi, destacam que a baixa testagem pode levar à subestimação da circulação e diversidade do vírus em várias regiões. “Embora rara, essa infecção viral pode causar manifestações respiratórias graves, reforçando que a doença possa ocorrer fora dos cenários tradicionais […] Ampliar as testagens e investir em vigilância genômica são medidas essenciais para identificar a circulação viral com mais precisão e apoiar ações de controle e resposta em saúde pública”, alertam.
