Que fatores precisam ser avaliados quando um medicamento é produzido? Essa é uma questão central que poderia trazer diversas respostas como: a efetividade para o tratamento ao qual se destina, se apresenta muitos efeitos adversos e se ele poderá ser fornecido a um custo justo para a população. Há ainda uma outra questão fundamental relacionada ao impacto que esse medicamento pode gerar ao ser descartado no meio ambiente.
Essa última questão foi contemplada no artigo publicado em janeiro com participação de pesquisadores da Fundação Ezequiel Dias (Funed) no periódico Research, Society and Development e intitulado: Os efeitos tóxicos do antirretroviral nevirapina e um medicamento à base de nevirapina para organismos aquáticos.
Juliana Souki Diniz, do Serviço de Farmacovigilância e Estudos Clínicos da Funed, é uma das autoras do artigo e explica que, embora o estudo enfoque um ingrediente ativo farmacêutico e um medicamento, ele servirá como base para análises de toxicidade de outros fármacos. “É fundamental que a Funed, enquanto indústria produtora de medicamentos, conheça os níveis de toxicidade do que ela produz. A nevirapina, que já foi produzia pela Funed no passado, é indicada para alguns casos de transmissão materno-fetal de HIV no Brasil e largamente utilizada por 35% dos pacientes que vivem com HIV no mundo. Conhecer esses impactos no meio ambiente nos faz pensar de forma mais assertiva toda a cadeia, independente do medicamento a ser pesquisado”, explica.
Marcos Paulo Gomes Mol, pesquisador da Divisão de Ciência e Inovação da Funed e que também participou do estudo, lembra que atualmente o conhecimento do medicamento a ser comercializado tem que contemplar todo o ciclo, da produção, ao uso racional pelo paciente até o descarte. “Podemos pensar o descarte enquanto resíduo da indústria, mas também temos que considerar o descarte feito pelos usuários, que excretam esses resíduos que vão diretamente para o sistema de esgotos e que os tratamentos convencionais não conseguem remover. Assim, cada medicamento pode alterar os mananciais e a vida das pessoas de forma diferente, por isso a importância de conhecermos a toxicidade ambiental dos fármacos”, afirma.
Marcos lembra ainda que, no caso do resíduo industrial, esse acompanhamento é mais fácil de controlar, pois é feito em uma área limitada e com variáveis conhecidas. Já a presença dos fármacos em decorrência do consumo, que chega ao sistema de esgoto, esse controle é mais difícil, uma vez que ele é pulverizado em diferentes regiões das cidades e cursos d’água.
O estudo apresentado pelos pesquisadores avaliou a toxicidade em três níveis de organismos aquáticos: Chlorella vulgaris (microalga), Artemia salina (microcrustáceo) e Aliivibrio fischeri (bactéria). A metodologia usada foi o modelo estatístico não paramétrico de dose-resposta, com análises feitas em sistema de cromatografia líquida de ultraeficiência (UHPLC). Juliana acredita na importância de se conhecer o tamanho do impacto para depois realmente apostar em ações para evitá-lo. “E essas ações podem ser desde reanalisar um processo produtivo até revisar o Plano de Gerenciamento de Riscos (PGR) e de Resíduos de Serviço de Saúde (PGRSS), por exemplo”, conta.
Por meio do estudo, os pesquisadores concluíram que é possível implementar o monitoramento da toxicidade ambiental de micropoluentes na rotina industrial, por meio de testes de toxicidade padronizados e economicamente acessíveis, que oferecem agilidade e praticidade na análise de efluentes. “Nossa expectativa agora é que o estudo funcione como uma plataforma que sirva de base para a análises do nível de toxicidade de outros medicamentos, que possa ser usada tanto na avaliação de cursos d’água urbanos, como em efluentes industriais”, afirma Juliana. A pesquisadora destaca ainda a parceria firmada entre a Diretoria Industrial e a Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento da Funed, por meio da atuação do Serviço de Ecotoxicologia , que está abrindo essas perspectivas de análise para a Funed junto com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Além de Juliana e Marcos, o pesquisador Leonardo Alvarenga de Paula Freitas, do Serviço de Desenvolvimento Analítico e Estudo de Estabilidade da Funed também participou no artigo. Os pesquisadores agradecem a participação das analistas Danielle Evangelista, Jociene Silva São José e Larissa Toledo, além dos pesquisadores da UFMG. Clique aqui e acesse o artigo na íntegra e em português.
Autor: Ascom Funed