A Superintendência Regional de Saúde (SRS) de Montes Claros inicia nesta quinta-feira, 1º, ações de mobilização dos 54 municípios que integram a sua área de atuação para a Campanha Julho Verde, voltada para o diagnóstico precoce e tratamento do câncer de cabeça e pescoço. Esses tumores são denominação genérica do câncer que se localiza em regiões como boca, língua, palato mole e duro, gengivas, bochechas, amígdalas, faringe, laringe (onde é formada a voz), esôfago, tireóide e seios paranasais.
Como parte das ações do Julho Verde, nesta quinta-feira, a Associação de Câncer de Boca e Garganta (ACBG) realizará a partir das 19 horas, via YouTube, uma live abordando o seguinte tema: Câncer de Cabeça e Pescoço: Qual é a realidade? Além de médicos e cirurgiões dentistas, a live será aberta à participação de profissionais de saúde de várias áreas, bem como a gestores de saúde dos municípios e a população em geral.
Para 2020 a estimativa do Instituto Nacional do Câncer (INCA) era de que seriam diagnosticados no país 15.190 casos de câncer oral, porém foram notificados 16.170 casos. Em Minas Gerais, a estimativa inicial era de que seriam diagnosticados 1.620 casos de câncer oral, mas esse número aumentou para 2.260 notificações.
“Essa situação é preocupante, pois no ano passado, devido à pandemia da covid-19, os serviços de saúde de média e alta complexidade só estavam atendendo casos de urgência. Com isso, a tendência é de que neste ano os casos de câncer de cabeça e pescoço sejam identificados em estágios mais avançados”, observa a cirurgiã dentista, Denise Silveira, mestre em cuidado primário em saúde e referência técnica de saúde bucal da SRS Montes Claros.
Ela explica que os serviços de Atenção Primária em Saúde dos municípios têm papel de fundamental importância na busca ativa, no diagnóstico precoce e encaminhamento de pacientes para tratamento nos serviços especializados existentes no Norte de Minas. Isso porque, ressalta, entre os principais fatores para o desenvolvimento do câncer de cabeça e pescoço estão o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas, responsáveis por cerca de 80% dos casos. A infecção pelo Papilomavírus Humano (HPV), má higiene dental e a desnutrição, também constituem fatores de risco para o surgimento do câncer de cabeça e pescoço.
Nesse contexto, Denise Silveira pontua que “os agentes comunitários de saúde que atuam nos serviços de atenção primária se constituem importantes atores no encaminhamento de pacientes para atendimento especializado, visto que conhecem os territórios e o perfil da sua população de abrangência, mantendo com eles boa comunicação, o que é essencial para rastreamentos, orientações e monitoramento dos casos de câncer. Além disso, os serviços de atenção primária são responsáveis pela execução de ações voltadas para a promoção da saúde; melhoria dos hábitos alimentares; combate ao tabagismo; realização de ações voltadas ao autocuidado em saúde bucal; aumento do acesso da população aos serviços de saúde e diagnóstico precoce das lesões pré-malignas”.
Tratamento
Reforçando que os serviços de Atenção Primária à Saúde constituem a porta de entrada da população no Sistema Único de Saúde (SUS), Denise Silveira explica que “as lesões benignas são identificáveis e, se possível, tratadas neste ponto de atenção. Se o profissional necessitar de apoio no diagnóstico ou se a lesão identificada exigir um cuidado diferenciado que impossibilite que seja biopsiada na assistência primária, os usuários são encaminhados ao Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) da microrregião ou para as clínicas de estomatologia da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes); das Faculdades Integradas Pitágoras ou da Funorte”.
Já os casos fortemente sugestivos de câncer são encaminhados para a realização de biópsia confirmatória e tratamento nas Unidades de Assistência de Alta Complexidade (Unacons) da Santa Casa de Montes Claros e do Hospital Dilson Godinho.
Chances de cura
Denise Silveira frisa que, se diagnosticado no início e tratado da maneira adequada, além de aumentar as chances de cura, o paciente sofre menos com o tratamento que geralmente envolve cirurgia oncológica, quimioterapia e/ou radioterapia. Os métodos podem ser usados de forma isolada ou associada. As técnicas têm bons resultados nas lesões iniciais e a indicação vai depender da localização do tumor e das alterações funcionais que possam ser provocadas pelo tratamento.
“Para o sucesso do tratamento oncológico é essencial que o paciente seja encaminhado ao Unacom com o tratamento odontológico completo finalizado, sem focos de infecção e/ou dentes comprometidos na boca, nem próteses dentárias mal adaptadas, pois os problemas bucais podem comprometer o bom andamento do tratamento oncológico. Os serviços de Atenção Primária à Saúde têm a responsabilidade de acompanhar todos os pacientes em tratamento oncológico a fim de manter sua saúde bucal e dar suporte clínico e preventivo para as complicações bucais inerentes ao tratamento”, observa a referência técnica da SRS.
Epidemiologia
Segundo estimativas do INCA, por ano, surgem no país cerca de 41 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço.
Quanto ao HPV, estudos brasileiros indicam que cerca de 7% da população pode ter infecção pelo HPV detectada na boca. Com uma população estimada em 200 milhões de pessoas, esse percentual representa cerca de 14 milhões de brasileiros em risco de desenvolver câncer de cabeça e pescoço.
Nos últimos anos é cada vez mais frequente o diagnóstico da doença em jovens com idade inferior a 45 anos, com tumores originados pelo HPV. Por isso, ser vacinado contra o vírus é importante. A vacina é ofertada pelo SUS e está disponível nas unidades de saúde de todos os municípios. Para meninos, a indicação é na faixa etária de 11 a 14 anos e, para meninas, de 9 a 14 anos.
Autor: Pedro Ricardo